Todo mundo tem sempre uma imagem feia - ou bonita, sei lá. Mas a gente sempre tem imagens, mil imagens. Coisa que a gente não esquece, sei lá, vinte anos passados. Eu mesmo, me lembro da celulites da bunda de uma coleguinha, eu tinha que aguentar quando todo mundo sentava no chão da biblioteca pra ouvir a professora contas histórias, pra ver se alguém pegava um livro emprestado. E a menina, nem sei o nome, usava assim uns shorts apertados e eu tinha raiva de sempre ter que olhar praquilo.
Minha cabeça doente, hum, guardou isso de um jeito... pensa bem, porque diabos alguém lembraria de uma cena tão banal mais de vinte anos depois? eu. Que coisa.
Aí tem aquela história clássica - tudo em torno da morte - os diretores de cinema inventaram e ainda vou descobrir quem foi o pioneiro, de que quando vc tá pra morrer, aqueles cinco segundos da queda de um avião por exemplo, todas as imagens da vida do infeliz que morre aparecem na cabeça dele antes do final. Será que não foi algum publicitá rios desses de filminho de cartão de crédito? O negócio é esse, se esse anúncio existir, o meu será uma sequência um pouco mais lenta do que 24 quadros, meio que uma apresentação de slide.
Você, o pequeno príncipe das tormentas tem lá alguns espaços reservados, um deles constituído de sorrisoacordandofingindoquedormia bem sériorisinhorisão. Espero que não seja antes, espero que não seja aos noventa.
E se um dia eu me esquecer de tudo, estiver aqui na doralice com as minhas vizinhas amigas e sobreviventes do holocausto-nicotina - este aqui seria um bom campo de concentração nazi antitabagista - e eu nem me lembre mais os amores e tal pensarei no dia que alguém quis me pregar uma peça e sorriu tão lindo e chocolate pijaminha.
Ainda, quando segundos depois de ter enfiado a cara num prato de miojo - nunca se sabe o tipo de acidente doméstico - e quase perdendo a respiração, lá vem a sandalha e a caixa de correio, a mão materna, o cheiro de rastro, cenas-cenas-cenas, sériosorrisinhosorrisão.
Eu não sei que vida eu teria, não sei o que seria de mim, mas queria muito que fosse isso: vinho barato com gelo, zimmerman aqui e lá, as baratas e o inseticida, o prato aparmegiana, os magníficos shows que não fomos sem dinheiro, o sofá imundo e sete gotas do vinho barato com gelo, vanish, as plantas que só os malucos cultivam. Because you're mine, I walk the line. Mas é justo o contrário